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A tradição é o que era em Paris

Desfiles / Destaques / 6 Julho, 2017

Depois da estreia das norte-americanas Rodarte e Proenza Schouler, as veteranas na passerelle da alta-costura – Christian Dior, Schiaparelli e, na vaga mais recente, Iris Van Herpen – iluminaram Paris com a esperada dicotomia: tradição e inovação. As instituições do luxo mostraram por que motivo continuam a estar no topo da pirâmide do savoir-faire.

A Dior, agora sob a alçada criativa da designer italiana Maria Grazia Chiuri, partiu numa expedição inspirada por mulheres fortes, guiada por 50 tons de cinzento. A coleção de alta-costura dedicada ao outono-inverno 2017/2018 homenageou o legado de mulheres como a exploradora Freya Stark ou a piloto Amy Johnson.

Freya Stark costumava escolher peças do guarda-roupa masculino para as suas expedições no Médio Oriente, depois da I Guerra Mundial e, por isso, Maria Grazia Chiuri transportou o seu estilo para coordenados de alfaiataria – fatos de saia e casacos longos –, sem deixar de vincar a cintura com a ajuda de cintos em pele de crocodilo e rematar os coordenados com chapéus.

Depois de se ter tornado a primeira mulher a assumir a liderança criativa da casa no ano passado, Chiuri adotou o slogan “We should all be feminists”.

Fiel a esse quadro conceptual, a designer afirmou, em declarações à agência noticiosa AFP, que esta coleção foi uma homenagem às «primeiras exploradoras femininas, inquietas, que superaram as fronteiras geográficas e psicológicas». «As mulheres exploradoras eram muito corajosas e vestiam-se como homens, às vezes adicionando peças locais étnicas» aos seus looks, acrescentou.

70 na Dior, 90 na Schiaparelli e 10 na Iris Van Herpen

Naquela que foi também a coleção comemorativa dos 70 anos da casa Dior, Maria Grazia Chiuri contou ainda ter mergulhado nos arquivos do fundador, Christian Dior, ficando particularmente impressionada com os modelos de alfaiataria que invadiram o guarda-roupa masculino no pós-guerra.

À margem do desfile, cerca de 300 vestidos de alta-costura – que abarcam uma cronologia desde 1947 até à atualidade –, perfumes, mais de mil documentos de arquivo e uma centena de obras de arte estão expostos no Museu das Artes Decorativas, em Paris, a propósito da retrospetiva “Christian Dior, couturier du rêve”.

Não obstante a Dior comemorar 70 anos, a revitalizada Schiaparelli tem uma história ainda mais longa – embora interrompida.

A ressurreição da casa de moda nascida em 1927 vai continuando a um ritmo acelerado, com a apresentação de mais uma coleção sofisticada e artística.

Os motivos surrealistas – dos esquemas de cores inspirados pela obra de Joan Miró ao universo de Salvador Dalí – cruzaram a passerelle em silhuetas fluidas, jogos de transparências e sobreposições.

A relação da Schiaparelli com a obra de Salvador Dalí, de resto, remonta ao período entre as duas guerras mundiais, quando a fundadora da casa, Elsa Schiaparelli, e o artista espanhol se juntavam para trabalhar peças de vestuário e acessórios.

Com estreia agendada para o final de 2017, no Museu Dalí, na Flórida, EUA, a exposição “Imagination and Daring: Dalí and Schiaparelli” ambiciona precisamente catalogar a amizade entre os dois génios criativos com uma visão surrealista partilhada (ver A mão de Dalí na moda).

Por último, a comemorar o 10.º aniversário da sua marca, Iris Van Herpen voltou a desafiar as fronteiras entre moda, arte e tecnologia.

A coleção de alta-costura outono-inverno 2017/2018, apresentada no Cirque d’Hiver, explorou o universo do fantástico mundo aquático – intersetando ar, água e espaço.

Enquanto as luzes iam perdendo a intensidade para o arranque do desfile, começaram a revelar-se cinco tanques de água dentro dos quais estava o grupo dinamarquês Between Music, que conseguiu cantar e tocar debaixo de água.
Algumas das peças – que acompanhavam o movimento das modelos – foram desenvolvidas em estreita colaboração com o arquiteto canadiano Philip Beesley, conhecido pelas suas instalações imersivas. Muitas das peças foram feitas num metal leve, cortadas a laser em padrões de renda e moldadas à mão.

As luzes da semana de alta-costura na Cidade-Luz apagam-se amanhã, 6 de julho.



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