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Paris em tempo de cólera

Desfiles / Destaques / 28 Janeiro, 2016

comme-des-garccca7ons-homme-plus-fw16-paris-31Qual o papel interpretado pela comunidade da moda num cenário de crise política? Em Paris, durante a apresentação das propostas de moda masculina para o outono-inverno 2016/2017, os designers mostraram que há algo a fazer: comentar.

Em Milão, a Prada, a Vivienne Westwood e a Calvin Klein fizeram da passerelle um meio de passar uma mensagem de cariz social, retratando episódios de um mundo em mudança, marcado pela guerra, migração e uma natureza em estado de alerta (ver Desfilar a mensagem).

E, dois meses depois de a Cidade-Luz ter visto os seus pilares abalados pelos atentados terroristas (ver O contra-ataque do luxo), os acontecimentos de novembro apresentaram-se na recente mostra de moda masculina em forma de fantasma, que pairava no céu da cidade e junto ao teto do próprio evento. A assistência deveria trazer consigo a identificação pessoal; os bolsos e as bolsas eram revistados e um detetor de metais filtrava a passagem.

Nos desfiles, as referências aos ataques variaram entre o implícito e o explícito, enquanto os designers procuravam perceber quão políticos e sentimentais deveriam ser.

A declaração mais ousada chegou, talvez, pelas mãos do excêntrico designer belga Walter Van Beirendonck, que no ano passado reviveu uma frase de uma coleção passada como resposta aos atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo. A declaração “Stop Terrorising Our World” (“Parem de aterrorizar o nosso mundo”) regressou esta temporada, numa coleção a que o designer chamou “WOEST” (“furioso”).

«Estou irritado, furioso, com o que está a acontecer de errado no mundo», disse o designer nos bastidores do desfile à revista Dazed, discutindo tanto a crise de refugiados como a ameaça do terrorismo, sublinhando que o estado das coisas se tinha deteriorado desde a sua declaração no outono-inverno de 2015.

O desfile foi um convite à ação, uma forma de usar a passerelle para acelerar a agenda. «Acho que nos devemos unir e tentar encontrar soluções», afirmou o designer.

Na Comme des Garçons Homme Plus, Rei Kawakubo propôs não tanto uma solução ou grito de guerra, mas antes um tributo a um mundo dividido pela violência – embora, naturalmente, tenha mantido o silêncio sobre as inspirações do desfile.

Em coordenados que faziam referência a armaduras, graças ombros destacados e mangas articuladas, os modelos eram guerreiros da paz. Os manequins usavam peças florais elaboradas nos cabelos criadas pelo inimitável Julien d’Ys, num declarado contraste com o traje de batalha. No final do desfile, a procissão de homens saiu com bouquets de flores coloridas nos braços.Louis-Vuitton-2016-Fall-Winter-Mens-Collection-015

Kim Jones também criou uma espécie de exército na Louis Vuitton e o desfile foi uma ode à Cidade-Luz” e à casa da insígnia. Os modelos envergaram sobretudos, casacos e gabardines em verde-tropa e boinas militares rematadas com um patch Louis Vuitton. «Quando olhámos pela primeira vez para as boinas, ficámos tipo: “não podemos fazer isto”», confidenciou Jones, nos bastidores, sobre os perigos de jogar com um cliché parisiense. «Mas funcionou». As referências aos ataques foram bem mais discretas em comparação com Van Beirendonck, mas estavam claras na cabeça do designer. «Com todas as coisas que aconteceram em Paris… devemos celebrá-la ainda mais», defendeu.

Finalmente, a Balmain. Olivier Rousteing vestiu os modelos como “príncipes encantados” que luziam em casacos com cristais Swarovski, cores exuberantes, pelos, couros, veludos e coordenados de estilo equestre. Houve também uma clara influência militar, expondo o #BalmainArmy de forma mais literal. Nos últimos coordenados do desfile, a música tornou-se mais solene, a orquestra tocou uma versão de “All of the lights” de Kanye West, como uma procissão de looks em preto a encerrar todo o processo, num aceno subtil de Rousteing à cidade que o fascina.

Em cada um dos desfiles houve um fio condutor.

walter-van-beirendonck-fw16-paris-371Van Beirendonck não quis chamá-los de guerreiros, mas o designer sublinhou como o gangue de modelos estava unido nas suas diferenças.

Os homens de Kawakubo eram soldados de paz, unidos não pela guerra, mas pela beleza, enquanto os modelos de Jones formavam um exército que prestou homenagem à história e cultura de Paris.

Já Rousteing sempre definiu de forma clara a sua visão de inclusão, diversidade e comunidade (ver Rousteing e a geração selfie), e nesta temporada não foi diferente.

Quando questionado sobre o papel da moda face à violência que o mundo hoje enfrenta, Van Beirendonck foi claro: «Podemos falar sobre isso… Considero que todas as pessoas que têm uma voz, que são criativas, que têm o poder de dizer alguma coisa, o deveriam fazer».

Com os designers a falarem não só com palavras, mas também com roupas, música, e encenação, foi precisamente isso que aconteceu nesta semana de moda masculina em Paris, analisa a Dazed.

 



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