Mais de 700 mil metros de tecido são produzidos, todos os meses, nos teares da Riopele. Integrando verticalmente as áreas de fiação, tinturaria, torcedura, tecelagem e acabamentos, este nome bem conhecido por designers e marcas de vestuário em todo o mundo, distingue-se pela aposta constante na criatividade, investigação e desenvolvimento.
José Alexandre Oliveira, presidente da Riopele e neto do fundador, abre-nos as portas desta fábrica têxtil de Vila Nova de Famalicão e conta-nos o caminho percorrido pela Riopele até se tornar numa importante influenciadora do mercado global da moda.
Ao entrarmos no polo de Investigação e Desenvolvimento (I&D), inaugurado em 2015, somos rodeados de imagens que nos introduzem a 90 anos que contam a história da Riopele. José Alexandre Oliveira destaca de imediato o moinho, construído pelo seu avô e estrategicamente localizado junto ao rio cujo nome viria a batizar a empresa familiar. Logo após vislumbrarmos várias filas de cadeiras vermelhas, que no passado pertenceram ao Theatro Circo de Braga, somos apresentados à equipa criativa e convidados a sentar a uma longa mesa de madeira. «Todo este ambiente foi muito bem pensado, e funciona como um caminho para podermos receber o nosso cliente e proporcionar-lhe uma experiência diferenciadora», introduz o presidente.
Recuando a 1927, o ano de fundação da Riopele, partilha que foi com a ambição do seu avô e com apenas dois teares que tudo começou. «Costumo pensar que se o meu avô tivesse vivido nos dias de hoje, seria uma startup», revela com um sorriso orgulhoso, numa ponte com o espírito empreendedor sentido na “Famalicão Made Incubar”, a incubadora de empresas recentemente acolhida nas instalações da Riopele. «Os Cotins JO [resultantes da transformação de matérias têxteis recicláveis] foram um produto revolucionário, que teve muito sucesso na altura», conta, comentando que «desde o seu nascimento, a Riopele nunca parou de inovar». O que começou como uma pequena empresa familiar ocupa hoje mais de 170 mil metros quadrados e emprega 1.085 colaboradores, distribuídos pelas áreas de fiação, tinturaria, torcedura, tecelagem, acabamentos, modelagem, investigação, desenvolvimento e engenharia de produto.
Funcionando numa estrutura vertical, «a Riopele é das poucas empresas têxteis que trabalham desde a matéria–prima ao produto acabado», salienta o neto do fundador, indicando que a verticalização e a forte aposta na área de I&D são os principais fatores que explicam a afirmação no mercado internacional. Nos 1.200 metros quadrados que nos rodeiam, anteriormente ocupados por uma tecelagem, uma equipa de “Einsteins da moda”, como lhes chama José Alexandre Oliveira, trabalha no desenvolvimento de novos tecidos. A Riopele disponibiliza um arquivo de mais de nove mil referências, que pode ser consultado e readaptado pelos clientes que visitem as instalações. «Até podemos levar as nossas coleções ao cliente, mas quando ele vem cá, tem oportunidade de conhecer as pessoas, de acompanhar todas as fases da criação e produção, e de aceder livremente ao nosso arquivo», aponta.
«Cada vez mais, os clientes procuram exclusividade, querem partilhar informação, fazer parte do processo criativo e estamos abertos a isso», continua. «Recebemos os inputs deles, acrescentamos os nossos e dessa conjugação resulta o desenvolvimento do produto».
Este posicionamento é reforçado, momentos mais tarde, por Carlos Costa, membro da equipa de desenvolvimento. «Esta organização do espaço de I&D traz-nos resultados muito positivos. É muito mais verdadeiro poder estar aqui a conversar convosco e a mostrar-vos o meu processo de trabalho do que estarmos num estúdio criado apenas para esse efeito», indica. Acreditando que «não basta desenhar uma peça e que o tecido tem que contribuir para a sua execução», destaca que, atualmente, há uma grande vontade das marcas de juntarem forças com o know how do produtor. «Atualmente, recebemos de muitos dos nossos clientes um mood-board e um briefing muito conceptual, e eles esperam que a Riopele interprete e faça uma proposta, porque reconhecem em nós essa capacidade», exemplifica.
O desenvolvimento de tecidos para moda e vestuário, partindo de todo o tipo de fibras naturais, não naturais e recicladas é o core business da têxtil portuguesa, que exporta já 97% da produção para 93 países em todo o mundo. Seguindo o sucesso das marcas Rioplex (finais dos anos 50) e Texlene (anos 60), os produtos são, atualmente, apresentados sob as marcas registadas Çeramica (tecido easy care, respirável e de elevado conforto), Çeramica Clean (ecológico, suave ao toque e que repele a mancha) e Tecnosilk (tecido totalmente ecológico, desde a seleção das matérias–primas aos acabamentos). De entre uma extensa lista de private labels internacionais, a Riopele fornece desde o Grupo Inditex e Max Mara a marcas como Prada, Gucci, Burberry, Hugo Boss, Calvin Klein, DKNY, Karl Lagarfeld, Diane von Furstenberg, Versace, Gerard Darel, Paul Smith, Giorgio Armani e Tory Burch.
«Arrisco-me até a dizer que trabalhamos com todos os nomes que vocês possam conhecer na moda», constata José Alexandre Oliveira. «Hoje, a Riopele é uma opinion maker, as marcas estão sempre à espera de ver o que estamos a fazer e o que vamos lançar”. Carlos Costa reitera que, se antes se inspiravam em ferramentas como a WGSN, hoje é a própria agência de tendências que os visita para saber o que está a ser desenvolvido. «Podemos dizer que pertencemos ao grupo de influenciadores que ajudam a definir as tendências de moda», afirma. «O facto da Riopele não estar “dentro das paredes” traz-nos um know how enorme, temos como estratégia trabalhar diretamente com os clientes, vamos absorvendo informação e percebendo para onde se estão a orientar e o que precisam e assim vamos formando opinião”, esclarece.
Contudo, numa fase em que a indústria da moda está a sofrer transformações profundas, José Alexandre Oliveira e Carlos Costa concordam que o modelo tradicional, que impõe a organização de coleções por estação, já não é eficaz para responder aos desafios permanentes do mercado global. «Continuamos a desenvolver duas coleções por ano e a participar em feiras, onde temos que apresentar produto, mas as feiras são cada vez mais um ponto de encontro com os nossos clientes para mostrar em que fase de desenvolvimento estamos», elucida o presidente da Riopele. «Enquanto que, há 10 anos, as coleções eram quase fechadas, nos dias de hoje, temos que estar sempre atentos às mutações que se dão no mercado, por isso, desenvolvemos coleções cápsula, que se vão ajustando». Num contexto de desenvolvimento de produto, Carlos Costa corrobora: «todos os dias acompanho o trabalho dos meus colegas e vejo que um está a fazer verão para a China, outro está a fazer inverno para a Europa, outro está a fazer transição; hoje já nem sequer conseguimos classificar os nossos produtos por estação». Por isso, a estratégia é «fazer tecido todos os dias, para que a Riopele possa estar sempre a apresentar novidades ao cliente», explica.
«Quantos mais anos trabalho aqui, pior sei definir o que é a moda ou o que é uma coleção», confessa. «Neste momento, para mim, as duas palavras–chave no têxtil são focalização e racionalização. Focalização, porque hoje somos solicitados para fazer tudo e mais alguma coisa, por isso, ou há um foco da empresa ou é muito fácil darmos um passo em falso. Racionalização, porque temos como objetivo fazer a diferença com as fibras e tecnologias que já temos», esclarece. «O mais fácil é desenhar, colorir, fazer estampados e tornar visualmente atrativo um produto, mas criar um bom tecido é muito difícil», salienta, enquanto nos mostra um quadro com os novos desenvolvimentos da Riopele. «Isto é o que estamos a fazer agora e, como podem ver, não aparecem aqui imagens, porque queremos concentrar-nos, o ilustrativo tira imediatamente o foco do produto». Dando como exemplo um produto desenvolvido em 2016, que é 100% algodão, composto por fios torcidos e por acabamentos que não desvirtuam a matéria, antecipa que a empresa está «a apostar no produto verdadeiro, por acreditar que a matéria deve ser tocada e não disfarçada».
«Atualmente, há uma tendência de voltar ao “fazer”, porque as ferramentas que nos são dadas pela tecnologia fizeram com que perdêssemos o conhecimento da origem e de como é que o produto é realmente feito», reforça Carlos Costa. «Às vezes, faço um exercício com os meus colegas, em que nos obrigamos a trabalhar em cima da mesa, e só depois de elaborar o conceito, é que passamos para o computador», conta. «Outra caraterística muito importante do nosso processo é a verticalidade, o facto de termos uma confeção e podermos testar uma costura, ou fazer uma manga, e vermos logo como fica. Fazer um tecido é essa globalidade, não basta pôr os fios à teia e esperar pelo produto», destaca. «Costumo dizer que qualquer pessoa que tenha dinheiro pode comprar uma fábrica como a Riopele, mas essa pessoa não a põe a trabalhar como nós a trabalhamos, porque temos pessoas e temos cultura, e é realmente preciso este know how para trabalhar numa empresa como esta».
A par dos testes realizados dentro de portas, a Riopele aposta em parcerias criativas com o talento de designers e marcas portuguesas. Reiterando a posição de Carlos Costa, José Alexandre Oliveira acredita que «para fazer um tecido, também se tem que saber o que se vai poder construir com ele». Por isso, a Riopele «apoia um grupo selecionado de nomes da moda», de que são exemplo Hugo Costa, Sara Maia, Inês Torcato, Luís Carvalho, Vicri e Nuno Baltazar. Por trás desta curadoria está Rita Fortes, que nos conta que «para além da Riopele fornecer os tecidos para que os designers desenvolvam as suas coleções, fornece ainda metragem para que criem também peças que podem ser apresentadas em feiras ou quando os clientes visitam a empresa, de forma a demonstrar o potencial do tecido».
Na sequência da parceria realizada com a empresa, Nuno Baltazar foi convidado a integrar a equipa de I&D da Riopele. O designer de moda diz-nos que a sua principal função é «integrar o pensamento criativo do designer na empresa, já que é para os designers e para as marcas que trabalham». Entre as suas funções contam-se «a criação de peças que testem o potencial do tecido e possam identificar possíveis problemas que possam surgir, o acompanhamento da apresentação das propostas em feiras e visitas aos clientes e a identificação de tipologias que devem ser levadas para um determinado mercado», enumera. «Por exemplo, no mercado alemão, levamos mais calças e peças mais tradicionais e, no italiano, peças mais especiais e tecidos com uma componente de moda mais evidente», exemplifica, explicando que «como a dinâmica das coleções é muito rápida, muitas vezes, os clientes não têm tempo de perceber o que podem fazer com determinado tecido e o facto de poderem ver o tecido em peça, ajuda-os muito a perceber as possibilidades», colmata.
Em paralelo com o investimento constante em inovação e criatividade, nomeadamente através da celebração de parcerias com centros de investigação, a Riopele assume como prioridade o cumprimento de todas as normas ambientais, integrando práticas que promovem o desenvolvimento sustentável e o uso responsável dos recursos naturais. Equipada com um ecocentro e com uma ETAR, aposta em projetos de eficiência energética, redução dos produtos químicos e novas tecnologias de processamento para a redução da quantidade de água utilizada na produção. José Alexandre Oliveira garante que 60% da água consumida na empresa é reciclada e que a qualidade do rio é permanentemente monitorizada, mantendo o compromisso de harmonia com a envolvente abraçado desde a origem da Riopele.
Etiquetas: Empresas, Marcas, Riopele
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