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O papel de Carrie

Cultura / Destaques / 6 Maio, 2016

sex-and-the-cityAs atrizes Sarah Jessica Parker, Kristin Davis, Cynthia Nixon e Kim Cattrall deram vida, entre 1998 e 2004, às personagens da série de sucesso “Sex and The City”. Dos episódios ficaram importantes apontamentos de estilo e, claro, os pares Manolo Blahnik. Porém, em 2016, num tempo completamente dominado pelas redes sociais e pela explosão do feminismo e intervenção cívica em forma de tweets e hashtags, qual a relevância do papel de Carrie Bradshaw? Pioneira no relato do dia-a-dia no seu computador pessoal, terá sobrado espaço para o feminismo na caixa de sapatos da cronista?

Num episódio intitulado “The Real Me” (o segundo da quarta temporada), “Sex and The City” providencia ao público um dos momentos mais autorreferenciais da série. Carrie Bradshaw (interpretada por Sarah Jessica Parker), a protagonista, é convidada a participar num desfile de moda em Nova Iorque, que combina modelos reais, como Heidi Klum, com pessoas elegantes do círculo mediático de Manhattan.

O episódio é talvez uma resposta à perceção dos seus criadores de que o estilo de Bradshaw, em 2001, era tanto uma parte da reputação e legado da série como a sua fraqueza, analisa a revista digital Dazed.

À data do lançamento dos dois filmes que continuaram a história criada por Candace Bushnell (em 2008 e 2010), a moda e o consumismo tinham engolido a série e as suas personagens, mas “The Real Me” permanece como um momento-chave, que mostrou, intencionalmente, o lado perverso de um constante compromisso com a moda (ver Pequeno ecrã em grande estilo).

sex_3Carrie participa no desfile, depois de alguma hesitação, e desfila com uma gabardine Dolce & Gabbana e roupa interior brilhante. A meio do percurso, a protagonista tropeça e cai e Klum desfila literalmente sobre ela. A certa altura, o amigo Stanford Blatch (interpretado por Willie Garson) grita: «Oh meu deus, ela foi atropelada pela moda!».

 

Feminismo de Tumblr

Hoje, os looks e os temas de “Sex and The City” perderam parte do brilho face à “quarta onda” do feminismo, apelidada também de “feminismo de Tumblr”, dado o impacto das redes sociais e da Internet no fomento de um novo palco para as mulheres reivindicarem o que é seu por direito (ver T-shirt de expressão).

Face a esta realidade, os episódios da série de seis temporadas parecem relativamente datados. A série gira em torno da vida quatro mulheres com um dia-a-dia extravagante e luxuoso, antes da recessão económica que transformaria aquele mundo em utopia.

Questões como o racismo e a homossexualidade são retratadas com pouca sensibilidade – os amigos gays das quatro amigas, por exemplo, são muitas vezes apresentados como meros acessórios de moda.

E, se a série tivesse acontecido na era Tumblr, alinhada com a série “Girls” de Lena Dunham (resposta da geração atual a “Sex and The City”) teria sido, certamente, alvo de duras críticas.

Carrie_1Dito isto, “Sex and The City”, de acordo com alguns insiders, foi uma espécie de antecedente para a documentação da própria vida, agora apanágio da convivência no ciberespaço. Carrie aconteceu antes da era do Instagram, mas ela é a narradora autodiegética por excelência.

No 16º episódio da quarta temporada, a protagonista percebe que gastou 40.000 dólares em sapatos e não pode comprar o próprio apartamento. «Vou ser, literalmente, a velha mulher que viveu nos seus sapatos», exclama então a cronista de moda. Algo que é, ao mesmo tempo, grandiosos e absurdo – duas dinâmicas que disputam entre si o estilo de Carrie.

 

Roupas como folha em branco

Carrie muitas vezes narra o melodrama da sua vida pessoal através das roupas.

Para a primeira noite com Mr. Big (Chris Noth), a protagonista usa um vestido nude literalmente chamado “The Naked Dress”, de tecido revelador.

Sex_4Já quando incita a personagem Natasha (Bridget Moynahan) para um confronto, Carrie enverga um vestido de noite de John Galliano estampado com motivos de folhas de jornal. Porquê? A cronista está literalmente a viver o próprio escândalo tabloidesco.

Carrie é, para muitos, não tanto um ícone de estilo, mas a arquiteta da própria iconografia pessoal, alguém capaz de transferir os seus pensamentos para as roupas.

Os argumentistas da série, juntamente com a stylist Patricia Field, frequentemente permitiam que a personagem fosse “atropelada pela moda” e humilhada pela sua escolha de indumentária face à imprevisibilidade da vida.

Os créditos de todos os episódios, por exemplo, mostravam Carrie num tutu rosa, pelas ruas de Manhattan, até que passava um autocarro que a salpicava com a água de uma poça da estrada e os transeuntes olhavam para ela enquanto percebiam que a mulher alagada era a mesma que estava exposta num poster gigante do autocarro. Carrie era assim atingida pela sua imagem e o tutu era agora uma fonte de embaraço – os exemplos são infindáveis.

sex_2Em última análise, Carrie não é uma feminista moderna e o seu estilo não é particularmente relevante para as mulheres que cresceram com ela –, a maioria não pode comprar nenhuma daquelas peças de preços exorbitantes.

O que a personagem loira e os seus looks ofereceram, resume a Dazed, foi uma visão sobre a construção de uma narrativa feminina entre o ser e o parecer, que está ainda em discussão na ansiedade de mulheres atuais, mas que foi entretanto transportada para selfies, blogs e tweets.

 



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