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Não há peças obrigatórias

Designers / 7 Julho, 2017

A sala 11 de um antigo armazém do Porto acolhe o atelier e showroom de Ricardo Andrez. Num dia quase tão cinzento como a fachada que nos esperava no número 203 da Travessa do Covelo, o designer de moda veste uma camisa com um estampado colorido e recebe-nos com um caloroso sorriso.

Depois de nos convidar a entrar no seu espaço de trabalho, senta-se e acende um cigarro, num gesto tão descontraído que nos faz sentir imediatamente em casa. Em cima da mesa está a imagem de um cobertor azul com ilustrações de golfinhos. Conta-nos que o comprou com a ideia de o transformar num casaco, enquanto exibe a peça apresentada na sua última coleção, na ModaLisboa. A mistura improvável de materiais, a exuberância das texturas e a conjugação destemida de cores fazem já parte do imaginário da sua marca. Num discurso convicto de quem sabe o que faz, mas não se leva demasiado a serio, partilha as histórias, ideias e inspirações por trás de um percurso que continua a surpreender.

Sempre soube que queria ser designer de moda?

A primeira vez em que me apercebi disso foi no liceu, naquela altura em que começamos a sentir a necessidade de pertencer a determinados grupos e tribos. Foi então que comecei a analisar e a refletir sobre como é que as pessoas se vestiam e se comportavam para serem aceites. Quando ouvi falar da profissão de designer de moda, junto de alguns amigos, decidi informar-me e acabei por me inscrever num curso profissional de moda na Cooperativa Árvore. Depois, continuei a minha formação na escola de moda Citex [atual Modatex].

Pertenceu a alguma dessas tribos quando era mais novo?

Pertenci a várias. Entre outros, fui beto, fui surfista e, nos anos 90, fui muito influenciado pela estética ‘grunge’ do Kurt Cobain.

Depois de terminar a formação no Citex, começou logo a trabalhar na área da moda?

Na verdade, não concluí o curso no Citex. Quando cheguei ao último ano decidi interromper e passei dois anos a viajar. Só quando regressei ao Porto é que comecei a trabalhar na área, não logo como designer, mas em produção de moda. Foram seis anos que serviram para criar contactos e perceber o funcionamento da indústria, e que considero que foram fundamentais para o desenrolar do meu percurso.

O que o conduziu de volta ao design?

Numa viagem a Madrid, em 2008, conheci uma representante da ModaFAD, que me falou de um concurso destinado a novos designers. Sem grandes expetativas, enviei o meu projeto e acabei por ganhar o prémio de melhor coleção. Acho que foi esse o motor de arranque para isto tudo. Pouco depois, estava a apresentar na Barcelona Fashion Week e na Cibeles Madrid Fashion Week. Em 2010, integrei também o LAB da Moda Lisboa, onde fiquei até 2013, altura em que passei para a passerelle principal. Nessa primeira estação que apresentei cá, ainda trabalhava numa produtora, mas depois percebi que era mesmo isto que queria e passei a dedicar-me exclusivamente à criação da minha marca.

Depois de estar tanto tempo a viajar e de ter começado o seu percurso em Espanha, porque decidiu continuar no Porto a viver e trabalhar?

É óbvio que durante esse período em que apresentei em Madrid e Barcelona, pensei em mudar-me para Espanha. Mas nunca senti que queria realmente deixar o Porto. Acho que somos uns privilegiados – neste momento e no ponto geográfico em que estamos – porque temos a indústria aqui ao pé. Se me mudasse para outro país, esta rede de contactos teria que ser construída do zero. E, entretanto, com a entrada no LAB, as coisas começaram também a acontecer em Portugal. Hoje, olhando para trás, acho que foi a melhor decisão.

O seu estúdio encontra-se no mesmo edifício que o atelier do fotógrafo de moda Aloísio Brito e que a agência de manequins Best Models. Quais as vantagens de trabalhar junto de outros projetos criativos?

Vim para aqui em 2012, depois de ter estado numa residência artística no Palácio das Artes. Quando a residência terminou e tive que procurar um novo espaço, a minha primeira opção foi falar com o dono deste espaço, que é o meu antigo patrão da produtora [Eusébio & Rodrigues], e que gentilmente me cedeu esta sala. É muito bom e dá muito jeito trabalhar junto de outros criativos, porque quando tenho que fotografar, por exemplo, tenho tudo dentro de portas. E esta permanente partilha entre todos nós é muito interessante também.

Isso quer dizer que costuma sair da sua sala e pedir opiniões?

Por acaso não o costumo fazer, o meu processo de trabalho é muito introspetivo. Os primeiros desenhos e primeira abordagem da peça, gosto de pensá-los sozinho e fora deste espaço.

Quando começou a desenvolver a marca própria, quais eram as suas referências?

O trabalho do designer Henrik Vibskov sempre foi uma inspiração para mim, mas a minha referência máxima era e continua a ser Alexander McQueen. Tenho também que referir como influência o trabalho de sportswear nos anos 90 da Maria Gambina, que foi minha professora no Citex. Quando, há dois anos, ela me convidou para dar aulas no mestrado de design de moda da ESAD, foi uma sensação muito boa, a de ter alguém que admiro e que me viu a dar os primeiros passos a reconhecer a evolução do meu trabalho.

Partindo dessa experiência, que conselhos deixa aos novos designers de moda?

O conselho que deixo é seguirem o mais possível aquilo que querem e aquilo em que acreditam. E também trabalharem muito e serem persistentes, porque isto não é tão glamoroso como possa parecer ao início. Baterem em muitas portas, para começarem a criar laços com as pessoas da indústria e para que essas pessoas comecem a acompanhar também o vosso percurso.

Já que estamos a falar de relações com a indústria de moda, onde produz as suas peças?

Se olhar à volta, vai perceber que não tenho aqui uma única máquina de costura. Neste espaço, fazemos apenas a parte de criação e alguma modelação. A produção das peças é toda feita em fábricas portuguesas, em Santo Tirso, Famalicão e Porto.

A Ricardo Andrez era inicialmente uma marca masculina. Porque começou a criar também mulher em 2014?

Comecei por desenhar homem porque é realmente o que me dá mais prazer. Mas, no final de 2012, passei a ter um agente em Hong Kong e a exportar para o mercado asiático. Foi aí que percebi que tinha que pensar a marca de uma forma mais comercial e sustentável. Nas primeiras duas coleções, tentei adaptar a mesma peça a homem e mulher, mas não resultou comercialmente. Por isso, comecei a desenvolver um fitting que fosse assumidamente feminino. Foi um grande desafio porque geralmente penso a roupa de uma forma mais dura. Mas é algo que agora gosto muito de fazer.

A Ásia continua a ser o teu principal mercado?

China, Coreia e Reino Unido são atualmente os meus principais mercados. Em Portugal, num registo um pouco diferente, disponibilizo nas lojas Scar ID, no Porto, e na ComCor, em Lisboa, uma seleção de samples, que podem ser adquiridas depois de serem apresentadas em desfile.

Está aberto a receber encomendas de peças exclusivas?

Se for um desafio para mim, faço obviamente. Já aconteceu e, curiosamente, estou agora a desenvolver um projeto desses. Mas depende muito da pessoa que me procura e do que pretende. O pedido tem que ser aliciante para mim e tem que partilhar da minha linguagem enquanto designer.

Como define a sua marca?

A Ricardo Andrez é uma marca que tento que seja muito próxima das pessoas, porque o meu objetivo é que as peças sejam usadas no dia a dia. É despretensiosa, simples e com algum twist de design. Tenho sempre uma grande preocupação com o conforto e com a construção do interior das peças, a qualidade dos acabamentos é fundamental para mim.

O que sente quando vê alguém a usar uma peça desenhada por si?

A primeira vez em que me aconteceu isso, fui ter com o rapaz que estava a vestir uma t-shirt minha e apresentei-me. Mas não o devia ter feito, porque ele odiou a minha abordagem. Hoje em dia, continua a acontecer algumas vezes, e sinto-me feliz, é muito gratificante perceber que o nosso produto está a circular verdadeiramente. Claro que penso logo como é que aquela peça se enquadra na pessoa que a está a utilizar e acaba por ser um exercício interessante.

A partir dessa observação e das vendas que faz no showroom, consegue determinar um público-alvo?

É muito difícil definir um público-alvo para a minha marca, acho que é o mais abrangente possível. Vou dar um exemplo engraçado. O meu maior comprador em Lisboa nunca teve interesse em ir ver um desfile meu na Moda Lisboa, apesar de eu o convidar sempre, porque não se identifica com aquele universo. Mas, no final de cada apresentação, tenho sempre uma mensagem dele a dizer que quer “isto, isto e isto”. E posso dizer que ele é padeiro. Recebo também diferentes pessoas cá no atelier e, quando acho que a peça não se adequa, digo logo. Tento ser sempre honesto com quem compra e com o meu trabalho. Apesar de querer vender, o que me interessa sobretudo é que o resultado final seja sempre harmonioso.

O que o inspira na criação das coleções?

O que vivo e o que absorvo todos os dias. Pode ser arte, música, teatro, cinema, viajar ou mesmo um passeio com os amigos. Apesar de tentar abstrair-me e fazer a separação entre o profissional e o pessoal, acabo por estar sempre atento a detalhes nas roupas das pessoas, por exemplo. Isso acontece naturalmente, mesmo quando estou no metro a caminho de casa.

O que nos pode dizer sobre a coleção para o outono-inverno 2017/2018, “Venus as a Boy”?

Se analisar as minhas coleções anteriores, quase nunca encontra preto. Mas nesta, a paleta de cores tem uma base muito escura. Isso foi algo pensado inicialmente e foi um desafio que quis fazer a mim próprio. Quando falamos de coleções é tudo tão rápido e desgastante que temos que nos sentir desafiados e ter prazer no que fazemos, senão damos por nós a trabalhar só para produzir. Acho que a parte masculina é mais reta e acompanhou bastante a minha linguagem até agora. Na parte feminina, houve uma evolução, no sentido de tornar as peças mais delicadas e fluídas. Tenho também de referir que, na fase de pesquisa de materiais, tive a sorte de encontrar um latex que é habitualmente utilizado para produzir galochas, que para ser adaptado ao vestuário, teve que ser trabalhado manualmente, durante várias horas.

Mais uma vez, apresentou uma coleção que quebra a conceção de género. Que opinião tem sobre o movimento ‘agender’ na moda?

O que penso é que não há peças obrigatórias para homem ou para mulher. Mesmo quando desenhava só homem, em todas as minhas coleções tinha um vestido ou uma saia. E, nesta última coleção, só decidi o género em que ia apresentar algumas das peças na parte do styling. Acho essa abordagem interessante, porque é mais fiel à peça e ao conceito.

É o caminho que quer seguir?

Sim, interessa-me muito trabalhar dessa forma, dar mais tempo e mais de mim à construção de cada peça de uma forma livre. No fundo, acho que sempre trabalhei a minha marca um pouco nessa direção. Quero continuar a explorar isso e acredito que é possível consegui-lo.



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