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Destaques / Tendências / 28 Julho, 2015

2A4C3F5B00000578-3152089-So_chic_Lily_looked_pretty_in_a_simple_strapless_black_Chanel_dr-m-3_1436276816550 kate-moss rs_634x845-150713103031-634.Kaia-Gerber-CR-fashion-Book.jl.071315Modelos cada vez mais jovens, ainda aquém da idade adulta, invadem as passerelles e as páginas das revistas, suscitando questões éticas que a indústria é forçada a adereçar, alerta o New York Times.

«Não é um conto de fadas, é um cliché», advoga Sara Ziff, fundadora da Model Alliance, sobre a nova narrativa favorita do universo da moda, a de uma israelita de 14 anos de idade, que foi para Paris em busca de uma carreira de modelo, conheceu o designer Raf Simons numa loja Dior e inaugurou o desfile de alta-costura da casa ainda este mês. «Trata-se, mais uma vez, de usar meninas para vender roupas a mulheres», lamenta.

Na sequência de uma temporada na qual a idade foi amplamente celebrada, em campanhas publicitárias da Saint Laurent (Joni Mitchell) e Céline (Joan Didion), repleta de numerosos artigos sobre a compreensão da importância da geração mais madura para o sector da moda, o pêndulo parece ter balançado, drasticamente, na direção oposta.

Além do novo achado da Dior, Sofia Mechetner, a Chanel anunciou que o rosto da sua campanha de óculos será Lily-Rose Depp, de 16 anos, filha de Johnny Depp e Vanessa Paradis. E Kaia Gerber, de 13 anos, filha de Cindy Crawford, conquistou um spread fotográfico na edição de setembro da CR Fashion Book, a revista de Carine Roitfeld.

Os consumidores pretendem ver modelos que se assemelham a eles, contemplando os diferentes tipos corporais. E a maioria dos consumidores de moda adulta são adultos reais.

No entanto, deve reconhecer-se, que esta abordagem evoluiu. Existe uma consciência crescente no seio da indústria da moda, assim como no âmbito da lei, quando se trata da necessidade de proteger as menores de idade que trabalham num mundo de adultos.

Há três anos, todas as 21 Vogues internacionais assinaram e publicaram um pacto, comprometendo-se a não usar modelos menores de 16 anos, embora isso tenha sido, por vezes, contornado. Em 2007, o Conselho de Designers de Moda da América (CFDA na sigla original) e o Conselho Britânico de Moda emitiram orientações de saúde que fortemente recomendam (no caso do grupo americano) e obrigam (Conselho Britânico) a que os designers usem modelos com idade superior a 16 anos de idade nos seus desfiles.

Em 2013, na sequência da intervenção do CFDA e da Model Alliance, a Assembleia Legislativa do Estado de Nova Iorque aprovou uma lei que declara que todos os modelos menores de 18 anos devem ser tratados como artistas infantis, aplicando-se todos os regulamentos definidos, desde horas de trabalho limitadas a contas fiduciárias, supervisão e exames, estando obrigados, as marcas e os modelos a uma autorização da Secretaria Estatal do Trabalho.

Paralelamente, Ivan Bart, presidente da IMG models, a agência que representa Kaia Gerber, afirmou não permitir que modelos com idade inferior a 16 façam trabalhos de passerelle. E, de acordo com um porta-voz da Dior, Sofia Mechetner, de 14 anos, foi acompanhada em todos os momentos e regressou a Israel para frequentar a escola, estando o seu futuro com a marca por determinar.

Em acréscimo, assiste-se a uma narrativa cada vez mais vincada em torno de modelos, que pretendem deixar de ser apenas manequins anónimos, assumindo o papel de personalidades. Sofia Mechetner está a ser «vendida», afirma Michelle Tan, editora da Seventeen, como um «modelo para a ousadia dos adolescentes». A história de Kaia Gerber é, como disse Tan, «da realeza de Hollywood: a próxima geração», enquanto a fábula de Lily-Rose Depp é «a do tio Karl, que a apresenta à moda». Sendo que o tio Karl, na verdade, Karl Lagerfeld, em tempos empregou a mãe de Depp como sua musa.

E, no entanto, não importa quantos acompanhantes e pais são invocados e não importa que essas meninas, muito jovens, sejam a exceção e não a regra, isso não resolve o problema da perceção pública: a de que, argumenta Ziff, «quando se veste crianças com maquilhagem e saltos altos, a perceção é de que elas são objetos sexuais e, mais frequentemente do que são, esta é a forma como as imagens são lidas pelo público».

Ver um anúncio da Chanel não é aprofundar a história por trás da modelo. Assistir a um vídeo de um desfile online não é ver o nome e biografia de uma modelo. É ver uma menina, como Mechetner, num vestido longo, ligeiramente transparente. Ver uma sessão de revista não é ver a realidade. É ver o mundo que o estilista e o fotógrafo inventaram. E é aí que reside o problema, aponta o jornal americano.

Isto porque, apesar da moda poder fazer o seu melhor, explica Tan, para «não permitir que as imagens existam sem ter a certeza de que há também uma discussão sobre elas», o alcance dessa discussão tem um limite. Especialmente, quando ocorre numa arena separada das próprias imagens. Especialmente considerando que a idade de um modelo não é tão óbvia quanto a sua raça.

A moda é, na sua essência, uma indústria baseada no engano: a promessa de que, mediante o simples uso de uma peça se parece melhor, mais elegante, mais alta, mais magra, mais poderosa do que na realidade se é. O vestuário foi criado, afinal, para elaborar uma ilusão de perfeição física. Esse é o lado positivo, de que todos beneficiamos.

Mas a pretensão de que essas meninas são mais velhas, mais conhecedoras, mais sedutoras do que podem, eventualmente, ser na sua idade – e de que quem compra as roupas pode se assemelhar a elas, quando claramente não pode, porque elas se encontram, ainda, na adolescência, a implicação de um tempo físico distorcido quando as meninas têm corpos de crianças, mas a altura de um adulto – é o lado negativo.

Ao contrário das suas colegas maduras, que são celebradas precisamente por terem a idade que têm, sendo, portanto, apontadas como inspiração, essas crianças são célebres porque não se assemelham em nada à idade que realmente têm.

Não importa o quanto são vigiadas, essa disjunção entre a realidade e a imagem é chocante.

É revelador o facto de modelos, incluindo as mais bem sucedidas, abordarem publicamente esta questão. Modelos particularmente jovens são colocadas em situações que as tratam «como adultas e elas não sabem lidar com isso», disse Coco Rocha, já em 2011. «Elas estão apenas a pensar: “como posso agradá-lo?”». Acrescentou que, na sua perspetiva, aos 15 anos é-se, ainda, «muito jovem» para o negócio.

Da sua própria carreira, Kate Moss disse, em 2012: «eu vejo uma jovem de 16 anos de idade agora e pedir-lhe para tirar as roupas seria muito estranho. Mas eles diziam o seguinte: “se não fizer isso, não vamos contratá-la novamente”. Então, eu trancava-me na casa de banho e chorava e, em seguida, saía e fazia-o. Eu nunca me senti muito confortável com isso».

Então, qual é o fascínio? O imperativo do novo, presumivelmente, embora se possa ser novo aos 21. Pressão, talvez, das próprias meninas. «Os adolescentes são realmente ambicioso nos dias de hoje», explica Tan. «Não se pode culpar a Sofia por isso, embora eu, talvez, preferisse que ela tivesse esperado um pouco. É um reflexo do momento».

A moda gosta de refletir o momento. Também adora a transgressão; embora a temática “jovens em roupa de mulher” seja já bastante familiar, não sendo, por isso, verdadeiramente transgressora.

Talvez tenha chegado, finalmente, a hora de ter um novo final feliz.

 



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