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Há mais marés que marinheiros

Marcas / 17 Fevereiro, 2017

A maioria dos designers de moda gostam de seguir as tendências. Não é o caso de Svenja Specht. A fundadora da Reality Studio prefere inspirar as suas criações na representação do “here and now”, na observação da realidade do quotidiano e na interação das pessoas através da roupa. Com uma linguagem estética que se distingue pela interseção de referências multiculturais, a designer alemã funde o seu interesse pelas técnicas de produção artesanal com o lado mais industrial da moda, para criar peças contemporâneas que duram uma vida.

É um dia agitado na Reality Studio. Svenja Specht caminha freneticamente de um lado para o outro, enquanto faz os últimos acertos para fechar a nova coleção. Há uma sensação de caos controlado no ar. Aproveitamos a espera para conhecer tranquilamente o luminoso e espaçoso estúdio, que ocupa o primeiro andar de um edifício da baixa do Porto. As paredes brancas despertam imediatamente a nossa atenção, cobertas por “getas” (sandálias tradicionais japonesas), por colares exóticos e por tecidos coloridos com bordados orientais. Mas também há mascaras populares e outras referências à cultura portuguesa.

Contrariando a intensidade da sua agenda, a designer alemã fala num tom de voz calmo e honesto, enquanto segura uma calorosa chávena de chá. Adepta do slow living, questiona repetidamente o ritmo acelerado em que vive, o tempo absorvido pela dedicação constante ao trabalho. «Nunca acreditei em trabalhar até à exaustão», afirma, explicando que gostava de ser mais organizada, de ter mais tempo para desfrutar do presente. «Viver no momento e ser mais consciente no “here and now”, é a filosofia por trás da Reality Studio. É isso que tento alcançar há já algum tempo, mas ainda não tenho a certeza se consegui alcançar», partilha com a genuinidade que caracteriza o seu discurso.

«Será sempre o meu objetivo fazer coisas que durem mais, que sejam zeitgeist, que pertençam ao agora, continua. É óbvio que estamos a criar algo do agora, porque somos influenciados pelos acontecimentos da atualidade, na política, no ambiente ou no que seja. Todas as minhas coleções são influenciadas pelo agora», revela. Uma das características mais distintivas da abordagem de Svenja Specht é precisamente o facto de questionar a efemeridade do fast fashion e os métodos de mass production. E é também um dos motivos que justificam a mudança da marca para o Porto, uma cidade em que persistem artesãos e pequenos produtores.

A Reality Studio nasceu em 2005, em Berlim, marcando o regresso de Svenja Spetch, depois de alguns anos de trabalho em Paris, Pequim e Colónia, como designer de produto, designer gráfica e trend forecaster. Tudo corria bem até a fábrica alemã onde a designer produzia as peças abrir falência. «Tive que mudar a minha produção para a Roménia e o problema foi que não conhecia as pessoas. Tinha um agente e nunca tinha ido lá», conta. «Sei que tenho uma marca de pequena dimensão e sei que quero saber com quem trabalho. Quer dizer, que vantagem competitiva temos em relação a grandes marcas como H&M, Zara ou Acne?”, questiona.

Para Svenja Specht, a abordagem pessoal e direta que define uma marca de pequena dimensão faz toda a diferença. Pela força da sua produção e pela energia criativa que concentra, o Porto foi uma resposta possível. «Somos três pessoas a trabalhar aqui, os outros são estagiários, temos que encontrar uma forma de sermos competitivos através do nosso conceito», admite. «A nossa vantagem é que podemos realmente dizer com quem estamos a trabalhar. A Reality Studio é uma marca honesta», aponta.

Foi em 2011 que Svenja Specht, numa primeira visita a Portugal com o companheiro, Yoske Nishiumi (que agora também tem uma loja própria no centro do Porto, a Out to Lunch), se apaixonou pela cidade. «Conhecemos muitas pessoas simpáticas, fizemos amigos. O Yoske disse-me logo “vamos mudar-nos para aqui” e eu respondi “ok, mas para isso tenho que mudar também a produção da minha marca”».

Entretanto, ainda a partir de Berlim, a designer de moda começou a colaborar com alguns projetos de novos amigos portuenses, como o estúdio Colönia e a marca de tapeçaria Gur. A primeira experiência com a indústria propriamente dita aconteceu mais tarde, em 2012, quando produziu sapatos numa fábrica do norte de Portugal. Contudo, o processo de passar a produção das peças de vestuário para o país, foi um pouco mais difícil e demorado.

Sendo uma marca de pequena dimensão, foram precisos três anos até a Reality Studio encontrar alguém que fosse suficientemente flexível para produzir as suas coleções. «Por um lado, não é fácil ser uma marca simultaneamente industrial e slow fashion, porque estou dependente da indústria para obter os tecidos e para produzir as peças», reconhece. «Por outro lado, Portugal ainda tem tradições de artesanato e pequenos produtores e temos muito mais possibilidades de fazer coisas que não fazíamos antes», completa.

«Logo após encontrarmos o produtor para as nossas peças, que agora é nosso amigo, disse para o meu companheiro “ok, agora podemos mudar”», prossegue. Era 2014. Trouxeram 250 caixas, com 20 coleções dentro, muitos livros, revistas, chopsticks e três bicicletas, e mudaram-se de Berlim para o Porto. Antes desta cidade, Svenja Specht tinha já vivido e trabalhado em Paris, Colónia e Pequim, e é por isso que constantemente encontramos referências multiculturais nas suas criações. «A Ásia é uma grande influencia para mim, porque vivi na China três anos e porque tenho um companheiro japonês», justifica.

«Mas, antes disso, já era influenciada por personalidades fortes, como Laurie Anderson, Grace Jones e Gena Rowlands», enumera. «Não é como se olhasse e quisesse copiar o estilo delas, é a atitude, a forma como elas vestem as peças. Às vezes, até pode ser alguma coisa que não se adequa ao meu estilo e penso na mesma “uau, isto é incrível”, porque fica bem à pessoa e representa quem ela é e é isso que as roupas devem ser», partilha.

Svenja Specht continua: “também fui sempre influenciada pela minha maneira de ser. Sempre fui um pouco maria-rapaz, um pouco selvagem. Nunca fui muito menininha, mas também gostava de brincar com bonecas, gostava de natureza e animais, gostava muito de brincar no exterior», lembra. «Inspira-me poder combinar e opor estes dois lados: o lado masculino, que é representado pela cultura de rua e pelo streetwear e o lado elegante, que vem dessas mulheres de personalidade forte», esclarece.

Na coleção “Há mais Marés que Marinheiros”, Svenja Specht baseia-se, mais uma vez, na força da mulher. O ponto de partida foi a descoberta da comunidade AMA no Japão, uma tribo de mulheres que mergulham em águas muito frias para recolher marisco e pérolas, apenas com um pano enrolado em volta da cintura. «Elas são a única fonte de rendimento para as suas famílias!», exclama. Num registo mais masculino, a designer investigou os trajes de homens que têm uma relação próxima com o mar, como a policia marítima e os marinheiros.

As formas dos casacos masculinos navais servem de base à construção das peças para o inverno de Svenja Specht. O azul do mar, o verde das algas, o amarelo dos casacos da chuva e o laranja das boias marítimas predominam na coleção. Os padrões dos tecidos utilizados buscam as riscas típicas dos trajes dos marinheiros, as ondulações das conchas e os motivos étnicos e coloridos das peças utilizadas pelas mulheres da tribo japonesa. Os colares em rede são feitos à mão no estúdio. Os cestos artesanais, criados pela Gur, complementam as propostas da marca.

O que é realmente especial no trabalho de Svenja Specht é que tudo é pensado com autenticidade e ao mais ínfimo detalhe. No lookbook, manequins aparecem lado a lado com pessoas reais — amigos da designer e até Yoske, o seu companheiro vestem peças. Mais um reflexo da transparência da marca. Mesmo a expressão portuguesa que dá nome à coleção tem um duplo significado, que se enquadra na perfeição com a forma de pensar da designer. Para além da clara referência ao universo marítimo, o ditado “há mais marés que marinheiros”, na cultura popular portuguesa, significa que há sempre novas oportunidades, se alguma coisa correr pelo pior.

Nas suas palavras, Svenja Specht pertence ao seu pequeno mundo da moda. E esse mundo é a Reality Studio. Numa fusão eclética e multicultural de memórias, experiências e diferentes formas de pensar, a designer apresenta-nos, intimamente, a um universo de contrastes. Não é fácil prever o futuro quando se tenta viver no presente. Promete, no entanto, continuar a surpreender, porque, uma coisa é certa, inspirações e novas ideias nunca lhe vão faltar.



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