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Extrapolar os limites

Designers / 17 Maio, 2017

Gerir uma agenda que se divide entre o ensino, dois filhos, a gestão e direção criativa de uma empresa, o desenvolvimento da sua marca e a criação de coleções para tantas outras, pode parecer impossível, mas Hugo Costa concretiza cada tarefa com entusiasmo e distinção.

Dois dias depois da apresentação das propostas da sua marca para o outono-inverno 2017 — 2018, no Portugal Fashion, encontramo-nos à saída da Escola de Moda do Porto, para saber mais sobre o seu percurso promissor como designer de moda.

Apresentou a coleção “Amundsen” no Portugal Fashion em março último. O que pode dizer sobre as suas propostas para o outono-inverno de 2018?

O ponto de partida da coleção foi uma pesquisa em que descobrimos uma série de imagens de exploradores glaciares. A partir daí foi quase uma construção metafórica da tua própria necessidade de exploração, de descobrires mais, de extrapolares os teus limites. É o que acontece também com esta coleção em relação à marca Hugo Costa. Testar limites, volumes, formas novas. Adaptar elementos de época às necessidades contemporâneas. Foi por isso que lhe decidimos dar o nome do senhor Amundsen, que foi o primeiro explorador glaciar a atingir os dois polos. No desenvolvimento da coleção, pesquisámos muito sobre o vestuário técnico e refletimos sobre a função dos diferentes elementos que compõem as peças. Qual a importância de um bolso? Onde tem que se localizar para ser acessível? Em alguns tecidos, utilizámos coating, para lhes dar um aspeto de reflexo, mais cristalizado. Tentámos contrastar novos elementos com elementos que são intrínsecos à marca. No final, obtivemos duas versões das peças: uma muito mais fluída e tradicional, outra com um aspeto mais tecnológico.

Quais são esses elementos intrínsecos à marca Hugo Costa?

O oversized, alguns elementos de streetwear e de urbanwear, mas também alguns elementos clássicos. Gostamos de refletir sobre os básicos. Geralmente, os volumes das calças oscilam entre o slim fit e o oversized. A nível de acabamentos, utilizamos vivos de contraste, por isso, quando abres a peça deparas-te com uma componente gráfica muito forte, que gera emoções no consumidor. Por exemplo, numa peça azul bebé, como temos nesta coleção, tens o interior avivado a preto. Outro pormenor caraterístico da marca é que trabalhamos sempre os zippers com os dentes pretos, de forma a uniformizar acabamentos e fazer ligação ao seu interior.

A cor é também um elemento importante para a construção da sua marca?

Quando constróis uma coleção, constróis também um imaginário. E esse imaginário é conseguido também pela cor. Se estamos a falar de glaciares e de gelo, partes logo do princípio que tens que ter uma paleta de cores que varia entre o branco e o azul petróleo, passando pelo azul bebé. Essa paleta foi logo criada de raiz. Se tens uma marca de base masculina ou agender, tens quase sempre a necessidade de ter uma paleta de três tons — o preto, o cinza e o azul. Normalmente, trabalho duas ou três cores mais relacionadas com o tema e, depois, apresento essas cores mais neutras para criar balanço. Quando apresentámos esta coleção, pela primeira vez, em Paris, tínhamos 15 manequins e 30 coordenados, que dividimos por dois sets. Um primeiro onde está presente todo o imaginário cromático da coleção e um segundo construído pela paleta neutra que carateriza a identidade da marca.

Como descreve o seu processo criativo?

É um processo que nunca para. Neste momento já temos mood boards construídos e estamos a procurar matérias-primas para a próxima coleção. Ao contrário do que se possa pensar, o difícil não é desenhar uma coleção, é executá-la. Temos um tempo relativamente curto para desenvolvermos a parte intelectual do trabalho, para depois iniciarmos o processo técnico, nunca deixando as coisas demasiado fechadas. Tem que ficar sempre espaço para ideias novas e para detalhes que ainda podes querer acrescentar. Às vezes estás no café com amigos, falam de alguma coisa e pegas num guardanapo para desenhar. Como já aconteceu com algumas das peças que mais vendemos. É por isso que eu nunca desenho os coordenados todos. Prefiro definir os coordenados de estrutura da coleção e a partir daí ir compondo, introduzindo elementos mais fortes, de forma a termos peças que são muito mais intuitivas e que vão mais de encontro ao conceito. Acho que esta é a maior vantagem de fazermos um trabalho de autor, a imprevisibilidade, não ter que responder a um plano fixo. Se seguires demasiado as normas, a tua marca vai deixar de ter graça em pouco tempo. E eu não quero que deixe de ter graça. E, acho que, de certa forma, é isto que fascina as pessoas que seguem a marca.

Quando chega o momento de procurar esses materiais, onde costuma ir?

Trabalhamos sobretudo com a Riopele, em regime de parceria. Neste momento, é talvez a empresa que mais apoia o design de moda em Portugal, na parte têxtil. É muito importante termos estes parceiros que nos ajudam e nos disponibilizam material. E, no final, acabamos todos por ganhar e crescer com isso. Acredito muito no mercado nacional e nesta proximidade entre a industria e os designers.

Como funciona essa parceria?

A Riopele cede-me o material e, em troca, desenvolvemos uma pequena coleção ou adaptamos algumas das nossas peças para terem no portefólio. Acaba por ser uma colaboração bastante vantajosa para todos, porque, muitas vezes, também é difícil para o produtor provar que a matéria-prima que cria pode ser utilizada de diferentes formas. Ao aliares-te à visão criativa de um designer tens a oportunidade de ver esses materiais utilizados de uma forma mais inconformista e isso acaba por dar coragem a certos clientes para arriscarem mais e apostarem em ti.

Depois de adquirir a matéria-prima, onde produz as peças?

Algumas peças, mais criativas, são totalmente feitas dentro de portas. Outras, que são mais técnicas e complexas, preferimos mandar produzir em fábrica. Todas as nossas peças estão preparadas para serem industrializadas de uma forma eficaz, mas temos a flexibilidade de poder desenvolver alguns acabamentos manualmente, como a modelação e o corte, de forma a garantir que nada falhe. Temos sempre o cuidado de ter um acabamento perfeito em todas as peças.

O seu pai tinha uma fábrica de calçado, por isso, sempre teve uma ligação à industria. É por isso que também desenvolve calçado e acessórios nas coleções?

Cresci na fábrica de sapatos do meu pai, em São João da Madeira, e as primeiras coleções que desenvolvi foram de calçado. Só depois é que comecei a trabalhar mais a área têxtil. Mas não é por isso que integro calçado e acessórios nas minhas coleções. Na minha cabeça, não faz sentido utilizar sapatos de outra marca quando estou a desenhar uma coleção de raiz. E acaba também por ser uma opção que faz sentido comercialmente. Quando falamos de moda, sabemos que os acessórios são mais procurados. Normalmente, valorizas mais um par de sapatos do que um casaco, por exemplo.

Isso quer dizer que vende mais acessórios?

Neste momento, é meio-meio. Mas os nossos sneakers, por terem um design básico e clássico, acabam por ser mais transversais aos interesses do consumidor. Para mim, trabalhar com acessórios funciona como uma valorização do conceito da marca.

Portugal é reconhecido internacionalmente como um país de excelência na produção têxtil e de calçado. Acha que podemos dizer o mesmo em relação ao design dos nossos produtos?

Com estas parcerias com novos designers, e com o trabalho que a APPICAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos tem vindo a desenvolver na promoção do calçado nacional, as coisas começam a mudar. Basta pensarmos que se a estratégia inicial da associação era promover a qualidade do nosso calçado, hoje é valorizar a qualidade do nosso design. Sim, somos respeitados pela nossa qualidade, por sermos tão bons a produzir como os italianos e os franceses. Mas também já temos diversos prémios têxteis e empresas portuguesas a fornecerem as maiores marcas internacionais. E mesmo a dar resposta, a nível técnico, a marcas como a Adidas e a Nike. Não é preciso ir muito longe. Posso dizer-lhe que os meus sneakers são feitos na mesma fábrica que produz os do Raf Simons, com a mesma sola e os mesmo artigos de pele. Somos um país periférico, mas estamos a deixar de ser periféricos em termos de criatividade.

A nível estratégico, essa condição periférica de Portugal é vantajosa para a sua marca?

Sem dúvida. Em Portugal, conseguimos encontrar facilmente o espaço certo para criar um atelier, a um preço muito mais acessível. E é também mais fácil chegar aos produtores de matéria-prima.

Fala da Hugo Costa como uma marca de autor, mas responde sempre no plural.

O projeto está em meu nome, mas era ingrato estar a dizer que o trabalho é só meu. Neste momento, somos uma equipa de três efetivos e quatro estagiários. Falo sempre no plural, porque faço questão que todos estejam envolvidos nas várias fases do processo. Quero que todas as pessoas que trabalham comigo sintam que está ali um bocadinho delas. Mesmo no caso dos estagiários, que ainda estão a aprender. É muito bom entrar sangue novo, para nos espevitar a todos.

Como é um dia na vida do Hugo Costa?

A minha vida é muito imprevisível, não consigo ter dois dias semelhantes. Mas isso obriga-me também a ser muito mais metódico e organizado. Nos dias em que não tenho que dar aulas no Porto, começo o dia a levar os meus filhos à escola. Depois, sigo para o escritório, que fica também em São João da Madeira, onde vivo. Tomo um café e começo a trabalhar. Começo por fazer um plano para o dia, mas há dias que não consigo fazer as tarefas que foram planeadas. Ou porque sou solicitado para tirar dúvidas, resolver problemas, questões burocráticas, dar resposta a projetos. Ou porque tenho reuniões com clientes, tenho que ir aos produtores ou às fábricas para acompanhar o desenvolvimento das peças.

Antes de criar a marca, já desenhava coleções para outras marcas. Como surgiu a oportunidade de começar a desenhar coleções em nome próprio?

Depois de terminar a licenciatura em Design de Moda fiz um estágio numa empresa têxtil, em Santo Tirso. Essa mesma empresa contratou-me, mais tarde, como diretor criativo. Tirando essa experiência, trabalhei sempre como freelancer, para empresas de têxtil e calçado. Em 2006, apresentei a minha primeira coleção no concurso Acrobatic. Continuei a participar nas edições seguintes e, em 2009 e 2010, ganhei os prémios “Melhor Coordenado Masculino” e “Melhor Coleção”. Entretanto, em outubro de 2010, estava a ser criado o espaço Bloom do Portugal Fashion e o Miguel Flor convidou-me para apresentar lá a minha coleção. A partir daí foi sempre a evoluir, conciliando a minha marca com o desenvolvimento de coleções para outras. E, entretanto, com o ensino. Em 2012, comecei também a dar aulas no Centro de Formação Profissional da Indústria de Calçado, na Escola de Moda do Porto e no Modatex.

Era uma vontade que já tinha, a de desenvolver a marca própria?

Desde que acabei a licenciatura. Posso dizer que, quando o Miguel Flor me contactou, já tinha parte da coleção desenhada. Já estava a pensar desenvolve-la com o prémio que tinha recebido no Acrobatic. Por isso, disse logo que sim ao Miguel. Mas, na altura, foi um desafio. Estava de casamento marcado e acabei por passar parte da minha lua de mel a fazer moldes. Felizmente correu tudo bem, mas costumo dizer que sou uma cobaia feliz, porque a marca acabou por se construir ao contrário. Primeiro apresentámos as coleções e depois é que pensámos na estratégia. Saber como se faz um plano de negócios, a importância do e-commerce, do marketing e das redes sociais são igualmente pontos de extrema importância quando começas a tua marca. Nós, os designers de moda, vivemos uma vida muito intensa e muito cheia de desafios, temos que ter a perseverança, persistência e estupidez necessárias para estar sempre a resolver problemas. Mesmo não sendo exigido ao designer saber isso, é preciso que haja uma consciencialização do que vai precisar no futuro para estruturar o negócio e criar consistência no projeto.

De onde surge a inspiração no meio de uma agenda tão intensa?

Não tenho uma fórmula, é algo extremamente sensorial. Já me inspirei numa sombra para criar uma silhueta. Já me inspirei num escapulário de uma camisa dos anos 80 que vi um turista a usar na rua. Costumo dizer que me inspiro em pessoas, em coisas que aconteceram e foram impactantes. Pode ser uma fotografia, uma música, uma letra. O Pinterest e o Google não podem ser as nossas únicas ferramentas. Temos que fazer pesquisa na rua, saber olhar para as pessoas e perceber o que querem.

Quais as expetativas da marca para o futuro?

Desde 2016, estamos a apresentar na Paris Fashion Week, com o apoio do Portugal Fashion. O objetivo é continuar, porque felizmente a marca tem despertado muito interesse, e estamos já em negociações com novos showrooms em Paris. Um segundo objetivo é passar a trabalhar para além do retalho, potenciando a venda direta e a maior proximidade com o cliente final. A nossa loja online está já pronta em backoffice. O próximo passo é investir no desenvolvimento de uma equipa dedicada ao e-commerce e numa oferta diferenciadora do nosso produto disponível em lojas. É um trabalho que ainda estamos a desenvolver, mas no qual deposito muitas expetativas para o futuro.



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