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O contador de histórias da moda

Designers / 18 Setembro, 2017

Designer de moda, stylist e observador atento de tudo o que o rodeia, é a contar histórias que Pedro Pedro encontra a sua motivação e realização profissional.

Com um percurso que contabiliza mais de 20 anos, Pedro Pedro inspira-se no universo masculino para criar coleções femininas, protetoras e descontraídas. É no seu atelier, na baixa da cidade do Porto, que nos encontramos. Um pouco por toda a sua mesa de trabalho, há amostras de tecido, lápis e canetas de todas as cores e, bem organizados ao centro, os primeiros rascunhos que nos introduzem à sua nova coleção.

Começou o seu percurso em 1996, numa altura em que o design de moda estava a dar os primeiros passos em Portugal. Como surgiu o interesse por esta área?

Sempre adorei pintar e desenhar, tanto que aos 12 anos comecei a ter aulas de pintura a óleo. Quando estava numa grande indecisão sobre o que ia fazer quando terminasse o liceu, a minha mãe, que via os meus livros da escola sempre desenhados, disse-me que lhe tinham falado de um curso que era 90% desenho e o resto teoria, um curso de design de moda. E eu fiquei “ok, parece-me interessante, deixa ver”. Foi assim que tive o meu primeiro contacto com a área e que me escrevi no Citex [atual Modatex], onde estudei dois anos. Depois disso, completei a minha formação na Academia de Moda da Porto.

Qual foi a sua primeira experiência profissional?

Na altura em que fui estudar para a Academia de Moda, o Nuno Eusébio, que era o diretor do curso, propôs-me fazer um trabalho a desenhar fardas. Essa primeira experiência foi muito importante no meu percurso, porque comecei muito cedo a ter uma perceção do mundo real e a aprender como me adaptar às exigências de um cliente. É que por muito boa que a escola seja, na altura em que estudei faltava ainda muito esse lado mais realista da indústria da moda. Há vinte e tal anos atrás, quando falávamos de moda em Portugal era tudo um começo. As nossas empresas trabalhavam sobretudo com exportação e vinha tudo ditado lá de fora.

A nossa indústria continua a dedicar-se sobretudo à exportação. O que acha que mudou desde então?

Acho que foram dados grandes passos. Os CEO’s das nossas empresas estão a ficar mais novos e, geralmente, as novas gerações têm uma perceção diferente do produto. Tens cada vez mais produtos mais específicos, mais direcionados, e marcas e empresas que já se dedicam a produzir exclusivamente um tipo de peça. Acredito que o caminho pode ser por aí e acho que o tempo é agora, porque a imagem de Portugal é muito boa lá fora. Há segmentos que estão a fazer um ótimo trabalho: o calçado, a joalharia, o turismo, a música… O que sinto é que de repente tudo se conjugou e todas estas áreas estão a fazer um trabalho de expansão e de divulgação. O “made in Portugal” é, neste momento, um bem precioso.

Como se reflete essa atual imagem “do “made in Portugal” na marca?

Para nós designers, e para mim que não estou associado a nenhuma empresa, tudo acontece passo a passo. É crescer devagarinho e à medida das possibilidades daquilo que acontece. Tenho tido parcerias com algumas empresas portuguesas, como a ATB Malhas e a Dom, que me apoiam com o material e a produção das peças. E tenho notado também que nas feiras internacionais em que participo, por exemplo, as pessoas estão mais atentas e interessadas no que é feito em Portugal. Mas não quero, nem nunca quis ser uma marca massificada. Sempre soube que quero estar num nicho.

Quando decide criar a marca Pedro Pedro?

Depois daquela primeira experiência que falei, trabalhei dois anos numa empresa têxtil, mas acabei por me aborrecer e desiludir com a área. Foi então que decidi deixar o design de moda e mudar-me para o Algarve, onde trabalhei alguns anos como técnico de tráfego no Aeroporto. O regresso à moda aconteceu em 2003, quando a Academia de Moda me desafiou a participar no concurso “I Mode You European Fashion Awards”. Na altura, houve qualquer coisa dentro de mim que me disse que o deveria fazer. E assim foi, fui selecionado e acabei por ficar em primeiro lugar. E foi também nessa competição que a Isabel Branco, que fazia parte do júri, veio falar comigo e me convidou para apresentar a minha coleção no Portugal Fashion.

Esse convite assinalou o teu regresso definitivo ao design de moda?

Sim, comecei por apresentar três estações no Portugal Fashion, com a marca Pedro Pedro. Em 2004, o meu amigo do tempo do Citex, Júlio Waterland, tinha acabado de regressar do mestrado em Londres e começámos a falar de partilhar custos e responsabilidades. Foi assim que nasceu a marca Pedro Waterland, que apresentámos na Moda Lisboa e na Paris Fashion Week. Em 2008, terminámos esta colaboração e decidi continuar o meu caminho em nome próprio. Desde então, passei da passerelle da Moda Lisboa para a do Portugal Fashion, a convite do qual tenho vindo também a participar na Milano Moda Dona – Milan Fashion Week.

Para além da marca tem outros projetos em desenvolvimento?

A minha marca é a minha principal ocupação, mas felizmente há sempre outras coisas a acontecer. Há pouco tempo atrás, tinha uma parceria com a marca de calçado Basilius e o meu tempo era dividido entre os dois projetos. E, durante três anos, estive também a dar aulas na Escola de Moda do Porto. Mais recentemente, comecei a trabalhar como stylist e assistente de styling e faço também catálogos para marcas. É um trabalho bastante diferente, mais inventivo comparativamente ao de desenhar as minhas coleções. Enquanto que na minha marca a visão é muito minha, no styling tenho a possibilidade de construir imaginários através da conjugação de peças de outras marcas e designers.

O que o fascina no seu trabalho?

A possibilidade de contar novas histórias, é isso que acho graça e acho que as duas coisas [design de moda e styling] se acabam por complementar, porque mesmo quando faço as minhas coleções o intuito é esse. E é engraçado que as pessoas me digam isso mesmo, que ao verem o meu trabalho conseguem sentir alguma coisa, seja através da música, do espaço em que apresento ou do tipo de manequim e cabelo que escolho. É por isso que gosto sempre de usar raparigas que são muito reais. Quero que quando as pessoas estiverem a assistir ao desfile se identifiquem e consigam traduzir para si próprias o que estão a ver.

Fale-me sobre a coleção para o outono-inverno 2017/2018.

Quando penso uma coleção, normalmente começo pelos sapatos. Depois de ter trabalhado três anos na Basilius, percebi que adoro desenhar calçado, porque isso permite-me focar mais no produto. Esta coleção é inspirada no mar e começou precisamente com uma parceria que fiz com a Dom, uma empresa de Aveiro que produz galochas e botas de pesca. Normalmente sou conhecido por utilizar lãs e materiais naturais, mas desta vez tive a vontade de fazer algo inesperado e de me desafiar a fazer algo que nunca tinha feito antes. Procurei materiais mais técnicos, como borrachas e acabamentos encerados e brilhantes. E, de repente, tudo se conjugou. Quis também brincar com jogos gráficos entre o azul, o vermelho e o verde, e que fosse tudo muito contrastante com os pastéis e cores sóbrias que utilizo habitualmente. As formas são muito grandes e protetoras, apesar dos tecidos serem muito leves.

Está já a preparar a próxima coleção, para a primavera-verão 2018. O que pode revelar?

A coleção de verão vai ser uma continuação da de inverno e, apesar de ainda não ter definido um tema, posso já dizer que vai ser inspirada nos anos 80 e na atitude da Grace Jones. É moderna, minimal e urbana. Vou utilizar cores flúor e voltar a usar materiais técnicos, ainda mais leves. Esta coleção vai ser uma pluma! São materiais que normalmente usados para anoraques e que vou transpor para peças como saias e vestidos. É algo que também me define, a exploração do masculino-feminino. Muitas das minhas peças, principalmente os casacos, são usadas também por homem e eu gosto desse lado “no gender” da minha marca.

Apesar da marca se destinar a um público feminino, pensa em alargar a coleção a homem ou mesmo assumi-la como “no gender”?

Em termos de modelação e de formas, tenho peças que resultam em ambos os géneros. Estão ali no meio termo. Por exemplo, os casacos apertam “à homem”, porque geralmente as mulheres preocupam-se menos com onde é que está o fecho, e ainda há pouco vi uma produção em que era o rapaz que estava a vestir umas calças minhas. Aliás, de há quatro estações para cá, tenho duas ou três peças que desenho para mulher, que experimento e que gosto muito de ver em mim. Tem acontecido muito, até porque a moda é algo muito individualizado. Mas a verdade é que eu não me consigo dividir. O que eu acho mesmo graça é ao universo masculino transposto para a mulher.

Já falou várias vezes na focalização num tipo de peça. É algo que pensa em explorar no futuro?

Acho que em termos de desenvolvimento seria interessante e que as vantagens são muitas, mas não é algo que pretendo explorar. Aborreço-me facilmente e preciso de pensar sempre no conjunto. Até porque, para além de roupa, a marca vende um lifestyle. Casacos, vestidos e saias são as peças que vendo mais, mas se calhar se fizesse só essas peças a marca não seria tão interessante. Mas acredito que é um caminho e acredito que posso vir a focar-me num produto que representa o grosso de venda e o resto funcionar como um complemento. Isso poderia ser muito interessante. Por exemplo, na última feira que fiz, vendi muitos casacos. E, agora que penso nisso, começo a aperceber-me que talvez seja por isso que dou por mim a focar-me cada vez mais nessa peça.

Como descreve o seu processo criativo?

Quando faço uma coleção nova, o meu processo de trabalho é muito focado e muito fechado em mim. Tenho a necessidade de me incentivar e desafiar a fazer algo novo. Não sei se no final saio muito da minha zona de conforto, mas é algo que me preocupa e que me faz questionar: O que ainda não fiz? Que referências ainda não fui buscar? Que história ainda não contei? Quem é esta rapariga? O tema nunca é a primeira coisa que aparece. Eu desenho sem ver tecidos, só depois é que procuro os materiais. Quando tento aplicar os materiais nos desenhos e o resultado não é o que procuro, volto a desenhar tudo de novo. Como faço tudo à mão, chego a desenhar cada coleção três ou quatro vezes.

No que se inspira para responder a essas questões?

Depende muito da coleção e do que está a acontecer. Ultimamente dou por mim a ver muitas imagens de streetwear e das semanas de moda na rua. Outras vezes, são filmes. Não consigo explicar muito bem, porque é algo muito intuitivo. Mas não estou fechado, passo muitas horas em blogues e em tumblr’s e sim, vejo muita coisa que não me diz nada, mas de repente aparece alguma coisa que faz clique e acaba por me inspirar para criar algo novo.

Essa procura de inspiração no street style tem a ver com o facto de ter a visão de criar para pessoas reais?

Realmente nunca tinha pensado nisso dessa forma, ou nunca o tinha dito com essas palavras, mas sim. Eu gosto de criar peças diferenciadoras, mas que não sejam inacessíveis. E essas imagens de street style fazem-me pensar até onde é que se pode ir, ou qual é o limite. Há tantas tendências e tão abertas, que basicamente tudo está na moda e tudo não está na moda. É engraçado, porque pego numa revista de 1998, 2001, ou de agora e é tudo muito parecido. É estranhíssimo, porque, umas vezes, sinto-me um rato a correr na roda sem saber porquê e, outras vezes, sinto que estou a fazer a coisa mais importante do mundo. É assim uma relação amor-ódio. Tenho a sensação que já foi tudo feito mas, ao mesmo tempo, sinto que ainda se pode contar uma nova história e buscar algo que as pessoas vão achar interessante.

É essa vontade de continuar a surpreender as pessoas que o move?

Não vou dizer que não faço isto para uma validação, porque obviamente me dá gozo que as pessoas gostem das minhas coleções. Mas, a verdade é que tenho já muita gente que procura especificamente as minhas peças. Eu faço isto porque gosto, mas não ando nas festas, nem círculo nos meios. Sou muito caseiro e, geralmente, as pessoas nem sabem quem sou. O ano passado estava em Paredes de Coura com uns amigos e veio um rapaz ter comigo e disse-me “o teu casaco é muito fixe” e eu agradeci. Passado um pouco, veio outra rapariga e disse-me “gosto muito da tua roupa”. E a minha amiga ao lado estava a chorar de tanto rir, porque eles estavam a falar da minha marca e eu não me estava a aperceber que não era de mim que estavam a falar. Estas coisas estão a começar a acontecer e, se for algo controlado, é muito bom, sentir que as pessoas me reconhecem pelo que faço.



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