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Marcas / 20 Abril, 2017

Numa altura em que a sustentabilidade na moda é cada vez mais falada, a empresa de tinturaria e acabamentos Tintex caminha a largos passos para se afirmar como líder mundial.

Conscientes de um movimento que valoriza o tempo e a origem de cada produto, Mário Jorge Silva, CEO da Tintex, e Dolores Gouveia, consultora de tendências, fundem conhecimentos para criar coleções de tecidos que surpreendem pela versatilidade, pelo toque e pela cor.

Em visita à fábrica da Tintex, localizada em Vila Nova de Cerveira, deparamo-nos com a dedicação constante de uma equipa jovem e multifacetada, composta por mais de 120 colaboradores. À nossa volta, as máquinas de última geração funcionam a todo o vapor, para fazer nascer malhas inovadoras e criativas, com destino a marcas como Acne, Cos e Filippa K.

Como nasce o projeto Tintex?

Mário Jorge Silva (MJS) – A Tintex nasceu, em 1998, de um desafio que me foi feito por várias empresas portuguesas, para montar uma tinturaria que os servisse e que desenvolvesse produtos diferenciados.

Porque foi Vila Nova de Cerveira o local escolhido para a fixação da tinturaria?

MJS – Como, naquela altura, era muito difícil obter alvará de funcionamento, a empresa foi criada em cima das ruínas de uma antiga tinturaria, que tinha fechado por motivos de falência. Inicialmente, mantivemos uma parte do edifício e, ao longo do tempo, fomos investindo em máquinas modernas e na renovação das instalações. Pelo facto de estarmos deslocados da industria, esta mudança obrigava a custos elevados de transporte de matérias-primas e de deslocação de colaboradores. Antes de criar a Tintex, trabalhava como diretor de uma outra tinturaria em Barcelos e tive também que me deslocar cerca de 80 km para vir para aqui. Mas era a única hipótese.

Como conseguiu a Tintex tornar-se competitiva face a essas desvantagens?

MJS – Desde cedo, procuramos apostar em fibras que nos pudessem distinguir e que motivassem a procura dos clientes pela nossa diferenciação. O liocel, uma fibra proveniente da madeira e bastante ecológica, foi a nossa grande aposta. Apesar das suas muitas qualidades, esta fibra é de muito difícil tratamento, exige um aperfeiçoamento constante e uma grande dedicação. Com um trabalho sério, forte e persistente de investigação, conseguimos singrar no seu desenvolvimento. Em 2002, afirmámo-nos como líderes mundiais em malhas de liocel.

Na sua origem, a Tintex dedicava-se exclusivamente ao serviço de tinturaria. Como surge a oportunidade de passar a oferecer produto acabado?

MJS – Em 2002, aliámo-nos a uma fiação de Barcelona, que tinha investido muito na fibra de liocel mas não estava a ter o devido retorno porque tinha muitas dificuldades no acabamento. Essa empresa espanhola era muito antiga e, por isso, tinha já muitos contactos no mercado. Foi a partir dessa simbiose que passámos do serviço de tinturaria para oferecer produto acabado. Nós, transformávamos o fio de liocel e ajudávamos a escoar o produto dessa empresa e, simultaneamente, aproveitávamos a rede de contactos deles para chegar aos clientes. Mais tarde, como essa empresa estava focada apenas na fibra de liocel e a Tintex queria apostar no tratamento de outras fibras e passar a ter acesso direto aos clientes, em 2005, acabamos com a parceria. Posteriormente, apostámos na construção do nosso departamento comercial e no desenvolvimento de outras fibras ecológicas, como a fibra de milho, soja e bambu.

Foi nesta nova fase da empresa que reforçaram também a aposta na internacionalização? Quais os vossos principais mercados?

MJS – Em 2009, começamos a apresentar-nos em feiras, a visitar mais assiduamente clientes internacionais e voltamos a reforçar a equipa comercial. Estabelecemos uma rede de agentes em países como Inglaterra, França, Bélgica, Suíça e, mais tarde, em Itália e EUA. Entretanto, em 2014, decidimos fundir a criatividade com a técnica, ao contratar os serviços da Dolores Gouveia, que passou a desenvolver duas coleções anuais para nós. Neste momento, os países nórdicos e a Suécia são os nossos principais mercados.

O que mudou com a sua entrada?

Dolores Gouveia – Quando entrei, a empresa já tinha um imenso potencial; tinha o conhecimento técnico e tinha a vantagem de ter engenheiros criativos. O meu trabalho é estruturar uma oferta integrada e com espírito de coleção, tendo em conta as tendências globais de moda e de mercado e, ao mesmo tempo, a exploração do potencial de desenvolvimento do produto Tintex.

MJ – Quando se trabalha produção, perceber a parte do designer é difícil. Tivemos que nos adaptar a essa mudança. É preciso haver uma predisposição para aceitar e entender a parte criativa.

DG – Mas foi esta junção de saberes que permitiu que fossemos mais longe em termos comerciais. Entramos em feiras como a Première Vision, que implica uma candidatura própria e uma seleção muito apertada, e também em novos mercados, como o activewear.

O que distingue a Tintex de empresas que atuam nos mesmos segmentos?

DG – Com a Tintex a atuar nos mercados moda, activewear e intimates, as nossas coleções têm vindo a ser desenvolvidas de um modo híbrido, no sentido em que os nossos produtos se possam adaptar eficazmente a várias situações do dia a dia. Quando começou a aparecer a ideia do athleisure, já estávamos a trabalhar o conceito de malhas que são transversais a vários contextos e segmentos de mercado. Os dois critérios que distinguem a oferta da Tintex são o toque e a cor. É isso que motiva e surpreende o cliente. Porque, de facto, o nosso produto é técnico, mas tem uma vertente muito moda, que os produtores habituais deste tipo de produto normalmente não oferecem.

MJS – Geralmente, quem apresenta as malhas e coleções são tricotagens, que obtêm verticalmente os acabamentos ou subcontratam. Como fazemos acabamentos, preocupamo-nos com o toque e com as funcionalidades de cada produto. Sabemos como alterar superfícies e como surpreender o cliente com aspetos e sensações inesperadas. Nos nossos produtos de coating, por exemplo, o que nos distingue é o facto de trabalhamos com bases celulósicas e naturais, que são muito confortáveis junto ao corpo, em vez dos habituais poliéster e poliamida. Atualmente, a Tintex trabalha para três nichos, que representam o futuro e um grande potencial de crescimento: a sustentabilidade, o athleisure e o leisure.

Na vossa opinião, porque são essas áreas de crescente valorização pelo consumidor?

DG – Estamos perante uma nova fase de pensar. Há um movimento, despertado pelos millennials, que procura uma forma de consumo mais consciente e tem uma maior preocupação em saber de onde vem o produto e como é que ele é feito. Depois, há também a questão dos estilos de vida, que são cada vez mais dinâmicos. As pessoas estão numa situação formal, mas vão sair e querem poder usar a mesma peça. Ou estão no escritório e não querem ter de se preocupar se ficam todos enrodilhados, se tiverem de viajar para uma reunião noutro país. O tempo é cada vez mais valorizado. Assim como os momentos de lazer.

MJS – Não olhamos para a sustentabilidade como um capricho ou como um argumento de venda, é um princípio intrínseco à nossa empresa desde que começamos a apostar no tratamento do liocel.

DG – Não é por acaso que mais de 60% dos nossos clientes são nórdicos. Este movimento pro-sustentabilidade tem origem nesses países. Procuram-nos porque falamos a mesma linguagem.

Em que é que a Dolores se baseia para desenhar as coleções?

DG – Faço uma pesquisa em organismos de tendências, informação lançada pelas feiras e obtida junto dos clientes, e estudos de mercado. Leio tudo e mais alguma coisa. Desde o Business of Fashion ao Jornal Económico. Toda a informação é útil, para perceber a direção que devemos tomar. Depois, há também um trabalho de identidade, que tem uma interpretação que é a nossa.

MJS – A cada passo, eu e os restantes elementos da equipa, recebemos emails da Dolores, para estarmos sempre todos informados do que está a acontecer e a falar do mesmo.

Consideram que, por terem um produto tão diferenciado, acabam por também ditar tendências?

MJS – Por exemplo, nestes artigos de coating em algodão e em artigos sustentáveis, estamos certos que vamos influenciar bastante.

DG – O Mário disse a apalavra certa. Podemos de alguma forma ser influenciadores, mas não acredito que alguém dita tendências. Nós temos é que antecipar o que as pessoas possam desejar e, de alguma forma, oferecer-lhes aquilo que querem ainda antes de saberem que o querem.

Para além do liocel, que outros produtos inovadores destacam?

MJS – Acabamos de receber o prémio Hightex Award, em Munique, com um produto de base sustentável que usa as matérias recicláveis industriais da cortiça, aplicado com um processo inovador de coating. Entre as propriedades do produto estão a impermeabilidade, a respirabilidade e o conforto. Introduzimos também recentemente duas linhas inovadoras de mercerização e de coating, que nos permitem apresentar ao mercado produtos totalmente inesperados, que surpreendem pela sua estética e pelo toque extremamente suave.

Qual a percentagem da vossa produção destinada à exportação?

MJS – Primeiro, temos que distinguir a exportação direta da exportação indireta. Porque, cada vez mais, a nossa exportação é indireta, mas o conjunto perfaz um total de mais de 80% das nossas vendas. Temos contacto direto com os clientes finais, quando apresentamos os produtos em feiras ou em visitas, mas depois eles pedem-nos o produto já acabado. Então, cada vez mais, indicamos confeções portuguesas, que transformam o nosso produto e o entregam já transformado ao cliente.

Para que marcas internacionais vendem?

MJS – A Cos e a Acne são os nossos principais clientes. Depois, temos Filippa K, Ralph Lauren, Helmut Lang, Burberry, C by Chloé, Marc Jacobs, Patagónia, Vivienne Westwood, Lacoste, Armani e Kenzo, entre outras.

De que forma é que a Tintex apoia o design de moda em Portugal?

DG – A ESAD vai representar Portugal no Innovation Apparel Show da Techtextil e vamos ceder as nossas malhas. No mesmo registo, também costumamos colaborar com a Seletiva Moda, que organiza o concurso Portuguese Fashion News. Com designers e marcas mais pequenas, que utilizam pequenas quantidades, já tivemos também algumas parcerias, nomeadamente com a Marques‘Almeida. Estamos abertos a projetos que sejam interessantes para nós e, cada vez mais, somos contactados por designers portugueses que gostam muito do nosso produto. Mas esta é uma questão que temos que equacionar, terá que ser algo coerente e que represente a nossa identidade.

Sendo a Tintex uma empresa assumidamente sustentável, quais as preocupações no que respeita ao impacto ambiental?

MJS – Desde a fundação da empresa, temos uma Etar biológica que cumpre todos os requisitos ambientais e monitorizamos constantemente o nosso afluente. Orgulhamo-nos de apresentar valores que estão bastante a baixo dos limites legais. Na parte de processo, 25% da energia elétrica que a Tintex necessita é suportada por painéis fotovoltaicos. Para além disso, estamos a renovar o nosso parque de máquinas de tingimento, de forma a reduzir em 30% o consumo de água e de produtos químicos. E estamos ainda a estudar alternativas mais ecológicas de tratamento, que nos permitam alcançar valores ainda mais ambiciosos no que toca ao impacto ambiental.



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